Citar o passado numa linguagem visual atual

Um rótulo ornamentado, cores pouco saturadas e uma superfície com aspeto gasto podem sugerir uma longa tradição. Mas essa impressão não transforma a embalagem num objeto antigo nem prova que a marca exista há décadas. O neo-retro é uma estética contemporânea: seleciona sinais visuais de diferentes épocas e combina-os para que um produto atual pareça familiar, artesanal ou autêntico.

Um estudo de Franck Celhay, Lise Magnier e Jan Schoormans, publicado em 2020 no International Journal of Design, examina como esse estilo é construído nas embalagens. Os autores distinguem o neo-retro da referência a um estilo histórico específico. «Retro» pode remeter para uma forma definida do passado; já o neo-retro mistura e reinterpreta códigos de diferentes momentos da história do design. O seu efeito depende do reconhecimento desses sinais, não da reprodução fiel de uma época.

Tipografia, cor, textura e composição

Para descrever o estilo, os investigadores analisaram elementos estruturais, gráficos e informativos de embalagens que os designers tinham classificado como retro. Consideraram também a impressão global de cada composição. Entre os recursos recorrentes encontraram paletas limitadas e cores pouco saturadas, composições centradas e combinações de tipos de letra de famílias diferentes. A tipografia pode ser curva ou surgir em selos, faixas e emblemas; ilustrações, padrões e ornamentos acrescentam riqueza visual.

As superfícies também contribuem para a evocação. Papéis texturizados, acabamentos mate e irregularidades — reais ou simuladas — podem lembrar materiais antigos e processos manuais de impressão. Nas ilustrações, traços rugosos ou efeitos de gravura podem sugerir trabalho artesanal mesmo quando a imagem foi produzida digitalmente. Assim, o design recupera formas históricas usando recursos atuais para criar a aparência de um processo manual.

As embalagens analisadas incluíam ainda afirmações como «feito à mão», «local» ou referências ao ano de fundação. O artigo observa que algumas marcas recentes usam fórmulas como «desde» seguidas de um ano. Nesse contexto, a data pode funcionar como parte do código visual; por si só, não prova uma longa história. A estética e a informação impressa podem reforçar-se, mas não equivalem a uma comprovação independente do passado de uma empresa.

Os autores descrevem o efeito global através de três qualidades: naturalidade, harmonia e elaboração. Texturas, materiais orgânicos e ilustrações figurativas podem criar uma impressão natural; uma paleta restrita e uma composição equilibrada contribuem para a harmonia; a abundância de tipos de letra, ornamentos e texto acrescenta elaboração. Não é uma fórmula que todas as embalagens tenham de seguir. O significado de cada recurso depende da combinação com os restantes e do produto apresentado.

As associações que o estilo desperta

Na segunda parte da investigação, os autores criaram oito embalagens de café que variavam na ornamentação, na textura e na diversidade tipográfica. O estudo contou com 251 participantes recrutados entre estudantes. Estes avaliaram se os designs pareciam retro e realizaram uma tarefa de associação livre. As embalagens com mais recursos neo-retro foram percebidas como mais retro; as respostas associaram-nas a ideias de autenticidade, artesanato, originalidade e produção em pequena escala. As texturas relacionaram-se especialmente com uma impressão de respeito pelo ambiente; a variedade tipográfica podia sugerir classicismo ou elegância.

Estes resultados dizem respeito às associações despertadas por designs específicos, não a qualidades verificadas dos produtos. Uma superfície que parece papel artesanal pode ser um acabamento industrial com textura impressa; uma data pode ser decorativa; uma estética de pequena produção não explica, por si só, como o conteúdo é fabricado. O design convida a inferir valores a partir de sinais visíveis. Perceber a diferença entre impressão e prova permite apreciar o trabalho gráfico sem tomar a evocação como comprovação.

O estudo relaciona ainda o estilo com valores que os autores associam à subcultura hipster. Na experiência, certas combinações de elementos neo-retro também despertaram essa associação. O artigo salienta, porém, que o estilo circula atualmente num contexto mais amplo e não pertence exclusivamente a esse grupo. Essa ligação ajuda a situar culturalmente algumas referências — como a valorização do artesanato e da autenticidade —, mas não transforma cada embalagem neo-retro numa expressão de identidade subcultural.

O âmbito da investigação quantitativa é específico: foi realizada com estudantes e recorreu a embalagens de café concebidas para a pesquisa. Os resultados mostram como esse grupo reagiu àqueles estímulos; não demonstram que outras idades, culturas ou categorias de produto reagirão da mesma forma. Os autores propõem alargar a investigação a outros públicos e produtos.

Reinterpretação, não relíquia

Uma embalagem histórica pertence às condições materiais, técnicas e comerciais do seu tempo. O neo-retro, por sua vez, seleciona alguns dos seus sinais e transforma-os numa linguagem contemporânea: uma composição centrada ou uma tipografia ornamental pode combinar-se com técnicas atuais e uma nova identidade de marca. A distância entre passado e presente não é apagada; é o que permite ao design funcionar como citação.

Perante uma embalagem neo-retro, convém perguntar não só a que década remete, mas também que elementos recupera, como os transforma e que valores sugere. Importa ainda distinguir se esses valores são apresentados como atmosfera — uma impressão de tradição ou trabalho manual — ou como afirmações verificáveis sobre o produto. O passado funciona como repertório visual; o que vemos é uma reinterpretação contemporânea.

FICHA DE DADOS
Década
Época contemporânea
Região
Global
Nível
Entusiasta
Entidades
International Journal of Design

Fontes e referências

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