Um novo meio em uma cronologia diferente

A televisão não se tornou doméstica em todos os lugares da mesma forma ou no mesmo momento. Mar del Plata permite observar como um aparelho ainda novo passou de curiosidade a presença familiar e como esse processo dependeu não apenas do preço e da disponibilidade, mas também das relações familiares, dos hábitos e da organização dos espaços.

Em seu estudo sobre o período de 1960 a 1970, Inés Pérez reconstrói essa história com entrevistas de pessoas que viveram a chegada do televisor e a análise dos discursos da época. As transmissões locais começaram em 1960, quando o Canal 8 entrou no ar. Até então, a televisão argentina podia ser recebida em Buenos Aires; os moradores de Mar del Plata, portanto, já conheciam o novo meio antes da chegada de um sinal local. Essa diferença de cronologia importa: na cidade, as práticas de assistir em grupo coexistiram com o aumento das compras de aparelhos para uso doméstico.

Possuir um televisor nem sempre significava poder assistir a programas imediatamente. Uma entrevistada recordou que sua família comprou o aparelho seis meses antes do início das transmissões do Canal 8. Durante esse período, o televisor era tanto uma promessa quanto um objeto: a espera pelo primeiro programa e as tentativas de captar sinais distantes faziam parte da experiência.

Assistir na casa de outras pessoas

No começo, os aparelhos eram caros e muitas famílias não tinham um. Para assistir, era possível ir ao clube do bairro, a uma associação comunitária ou à casa de um vizinho. Os relatos reunidos por Pérez indicam que eram sobretudo as crianças que faziam essas visitas com frequência. Os adultos iam menos, e as lembranças nem sempre coincidem: quem recebia podia recordar grupos numerosos, enquanto os visitantes tendiam a se descrever como convidados respeitosos, não como parte de uma multidão que ocupava a casa.

Não era apenas uma questão de quantidade. Compartilhar um televisor não era o mesmo que pegar emprestado um liquidificador ou guardar alimentos na geladeira de outra família. O aparelho permanecia na casa anfitriã e reunia os visitantes diante da tela. Para assistir, a fronteira entre as casas se tornava temporariamente permeável, embora o televisor não saísse da casa de seus donos.

A experiência local não reproduziu exatamente a de Buenos Aires. Na capital, assistir em espaços públicos havia caracterizado os primeiros anos da televisão. Em Mar del Plata, argumenta Pérez, assistir em grupo e comprar um aparelho para a casa coincidiram. Não houve uma passagem única e linear do espaço público para a sala familiar: diferentes formas de acesso e uso coexistiram.

Sala, cozinha e atividades cotidianas

Quando uma família comprava seu primeiro aparelho, a sala de estar ou o cômodo que reunia estar e jantar eram lugares frequentes. Ali a família podia se reunir e as visitas viam o televisor. Vários relatos, porém, situam o primeiro aparelho na cozinha — uma escolha que não se explica simplesmente pela condição econômica da família.

O lugar da cozinha nos discursos domésticos também estava mudando. Revistas dirigidas às donas de casa passaram a apresentá-la cada vez mais como um ambiente limpo, confortável e agradável, equipado com tecnologias modernas. Nesse contexto, o televisor podia acompanhar as tarefas domésticas e ajudar a transformar a cozinha em lugar de convivência. Assistir não exigia sempre sentar-se em silêncio diante da tela; podia acontecer junto com outras atividades.

Essa possibilidade coexistia com críticas. Na imprensa e nos relatos analisados por Pérez aparece a ideia de que assistir à televisão podia ser uma perda de tempo, sobretudo quando comparada ao trabalho doméstico. A localização do aparelho, portanto, não era uma decisão neutra sobre os móveis. Também tinha relação com quem fazia o trabalho, quem podia interrompê-lo para assistir e como a atenção se distribuía dentro de casa.

O aparelho como novidade, prestígio e lembrança

O televisor podia sinalizar modernidade e posição social mesmo quando os preços começavam a cair. Algumas famílias lembravam com orgulho que foram das primeiras do bairro a comprar um. Em um dos relatos, o pai escolheu um aparelho Philips importado porque queria “o melhor”; décadas depois, a família ainda o conservava. Marca, origem e custo faziam parte do significado do objeto, além de sua função de transmitir programas.

As lembranças também variam conforme a idade. Os adultos tendiam a recordar o aparelho como novidade; quem era criança lembrava com mais frequência a espera pelo sinal, os horários das transmissões e os programas. Para os mais jovens, a televisão passou a fazer parte da infância e podia parecer, retrospectivamente, que sempre estivera em casa. Em alguns relatos, a memória chega a deslocar as datas, fazendo o televisor parecer presente desde os primeiros anos de vida de quem narra.

Pérez não trata essas diferenças como erros a eliminar para chegar a uma versão única. As entrevistas são narrativas moldadas por diferentes posições familiares e geracionais; suas ênfases, omissões e divergências ajudam a compreender como as pessoas viveram a mudança. A história da televisão doméstica não consiste apenas em contar quantos aparelhos foram vendidos. Também pergunta quem tinha acesso a eles, onde ficavam e que outras atividades aconteciam no mesmo espaço.

Em Mar del Plata, a televisão não apenas ocupou um lugar numa casa já estabelecida. Sua chegada alterou as fronteiras entre as residências, reorganizou momentos de convivência e colocou em tensão o valor do lazer e o do trabalho. A associação entre televisão e vida doméstica, que depois pareceu natural, foi construída por meio de escolhas e negociações concretas.

FICHA DE DADOS
Década
Anos 60
Região
América Latina
Nível
Entusiasta
Entidades
Televisión, Buenos Aires, Argentina, Inés Pérez

Fontes e referências

  1. Década de 1970 - Wikipediatranslate.google.com · 2026-11-07
  2. GALFER CUMPLE 70 AÑOS DE HISTORIAgalfer.com · 2026-11-07
  3. La domesticación de la “tele”: usos del televisor en la vida ...journals.openedition.org · 2026-11-07
  4. La Terceraes.wikipedia.org · 2026-11-07
  5. Historia de la modaes.wikipedia.org · 2026-11-07