Uma figurinha pode parecer um objeto mínimo: uma imagem impressa, um verso, por vezes autocolante e por vezes feita para ser colada. Contudo, a sua história não pode ser separada das mercadorias que a transportavam, dos álbuns que lhe atribuíam um espaço numerado e das pessoas que transformavam repetidas numa oportunidade para conversar e negociar. Em Espanha, os materiais reunidos para este artigo traçam um percurso desde imagens incluídas em embalagens de produtos até às saquetas vendidas de forma autónoma. Não é uma evolução linear nem a história de uma única empresa; é, acima de tudo, a transformação de um objeto promocional num sistema de coleção.

Antes da saqueta: imagens que viajavam com mercadorias

O Museo del Álbum de Cromos de la Villa de Estadilla situa os primeiros álbuns espanhóis conhecidos no final do século XIX. Segundo a sua explicação, chegaram através dos portos com produtos ultramarinos — como tâmaras, cacau e baunilha — cujas embalagens traziam figuras multicoloridas que as crianças começaram a guardar. A figurinha não era necessariamente o centro da compra. Integrava a embalagem e uma estratégia comercial ligada ao consumo quotidiano.

A mesma fonte refere depois imagens provenientes de caixas de fósforos, com especial presença no início do século XX. Situa também nos anos 1920 uma proliferação de figurinhas associadas a marcas de tabaco, pastilhas para complementar o sabor do caldo e chocolates. O catálogo de El Coleccionista Ecléctico menciona fototipias de caixas de fósforos e estampas comercializadas por empresas de chocolate e tabaco. Estes indícios mostram que o colecionismo em papel circulava por diversos canais antes de a saqueta se tornar dominante.

A impressão tornou possível a serialidade

Toda a coleção necessita de imagens que possam ser reproduzidas com regularidade. Um documento do Museo del Juego data o aparecimento da cromolitografia de 1837; outras sínteses de divulgação explicam que a técnica reduziu custos e tornou as imagens coloridas acessíveis a públicos mais amplos. A relação deve ser tratada com prudência: uma impressão mais barata não demonstra, por si só, como cada coleção espanhola era organizada. Mas oferece um contexto material plausível para a expansão de impressos pequenos, coloridos e em série no século XIX e início do XX.

A técnica não definia inteiramente o objeto. Uma figurinha podia ser uma estampa promocional, uma imagem para recortar, uma fototipia ou uma peça destinada a um álbum. O que aproxima estas formas é a serialidade: uma unidade isolada ganha significado porque pertence a um conjunto incompleto. A ausência torna-se parte da experiência. A casa vazia não é a falha do álbum; é o convite para continuar a procurar.

Do brinde comercial à compra autónoma

A mudança mais clara descrita pelo museu de Estadilla ocorreu no pós-guerra: começaram a vender-se saquetas para que as crianças pudessem comprá-las sem adquirir previamente os bens de consumo que incluíam figurinhas como oferta ou chamariz. A nuance é importante. A venda autónoma separava o colecionável da mercadoria alimentar ou doméstica e tornava a conclusão da série o principal motivo da compra.

Isto não significa que os vínculos comerciais ou promocionais tenham desaparecido de imediato. Mudou, antes, o equilíbrio. A saqueta introduzia incerteza: não garantia uma imagem específica e podia conter repetidas. Essa incerteza tornava necessária a circulação social das figurinhas. A troca não era um mero acréscimo nostálgico; era uma resposta prática a uma distribuição que quem colecionava não controlava.

Álbum, ordem e repetidas

Um álbum é mais do que um recipiente. Ao numerar espaços e associá-los a imagens determinadas, organiza o tempo do colecionador: uma primeira compra, uma procura, a acumulação de repetidas e um momento — nem sempre alcançado — de conclusão. Em 2009, a imprensa descrevia um serviço web da Panini em Espanha que permitia encomendar até 40 figurinhas para completar uma coleção. A solução mostra que, décadas após a generalização das saquetas, os espaços vazios continuavam a ser estruturais.

O Cinco Días também noticiava que a Panini, fundada em Itália em 1961 segundo o jornal, estava presente em Espanha desde meados dos anos 1970 e apresentava lançamentos desde 1962. Referia coleções de futebol, cinema e personagens populares, entre elas Fútbol 82, Transformers, Los disfraces de Mortadelo, O Rei Leão e Harry Potter e o Príncipe Misterioso. A variedade confirma que o formato não dependia de um só tema: desporto, televisão, animação e ficção podiam usar saquetas, álbuns e repetidas.

A troca como infraestrutura social

A troca de figurinhas é muitas vezes recordada como uma cena de recreio. A evidência permite uma formulação mais precisa: era uma infraestrutura informal para resolver a distribuição desigual dentro de uma série. Cada repetida podia tornar-se uma unidade de negociação; cada lacuna, um motivo para perguntar a outra pessoa o que tinha. O valor não residia apenas na imagem, mas na sua posição no conjunto e na dificuldade em obtê-la.

Não se deve idealizar esta prática nem atribuir-lhe efeitos universais. Em 2009, o Cinco Días recolheu a opinião de um dirigente da Panini segundo a qual as figurinhas tinham efeitos sociais, lúdicos e educativos. Trata-se de uma declaração empresarial, não de uma demonstração académica. Ainda assim, corresponde à estrutura observável do formato: completar um álbum pode exigir interação quando a compra por si só não resulta ou produz demasiadas repetidas.

Futebol, editoras e permanência do formato

O futebol ganhou visibilidade especial nesta história. O ABC situa as primeiras edições de álbuns da LaLiga nas décadas de 1940 e 1950 e afirma que Colecciones Este e Panini mudaram o panorama nos anos 1970. O mesmo texto data o primeiro álbum de LaLiga da Panini da temporada 1979/80, sob o nome CromoCrom, depois de uma aproximação anterior ao mercado espanhol com o álbum do Mundial da Alemanha de 1974. Estes dados situam uma fase concreta do colecionismo futebolístico, não a origem absoluta de todos os álbuns espanhóis.

A continuidade do suporte também importa. O museu de Estadilla explica que, por razões organizativas e de espaço, a sua exposição contém pouquíssimos colecionáveis posteriores a 1980, exceto alguns exemplos que mostram evoluções posteriores do papel. Por isso, uma visita ao museu ilumina sobretudo o período histórico anterior, mas não substitui um inventário completo do mercado posterior.

O que se pode afirmar e o que falta investigar

As fontes disponíveis permitem sustentar que as figurinhas circularam em Espanha com embalagens e marcas desde o final do século XIX, que se difundiram por vários suportes promocionais nas primeiras décadas do século XX e que a venda em saquetas no pós-guerra consolidou uma modalidade de compra autónoma. Documentam também a importância do álbum, das repetidas e da troca, bem como a força posterior das coleções temáticas e futebolísticas.

Existem limites claros. As fontes combinam explicação institucional, imprensa, comércio especializado e divulgação; não fornecem estatísticas homogéneas sobre tiragens, preços históricos, distribuição territorial ou hábitos de todas as famílias. Também não permitem transformar memórias partilhadas em regras universais. A conclusão mais sólida é mais específica: as figurinhas perduraram porque articularam três elementos ao mesmo tempo — uma imagem reproduzida, uma série incompleta e uma rede de troca. Da embalagem ao álbum, o objeto mudou de canal de venda, mas conservou a promessa que sustenta qualquer coleção: encontrar a peça em falta.

FICHA DE DADOS
Década
Antes de 1950
Região
Espanha
Nível
Introdução
Entidades
Sem entidades associadas

Fontes e referências

  1. Una historia de cromos | Pixartprintingwww.pixartprinting.es · 2026-09-19
  2. Museo del Álbum de Cromos de la Villa de Estadillaturismosomontano.es · 2026-09-19
  3. Los cromos resisten el auge de las videoconsolas | Empresas | Cinco Díascincodias.elpais.com · 2026-09-19
  4. Cromos Y Albumes Antiguos | El Coleccionista Eclécticowww.elcoleccionistaeclectico.com · 2026-09-19
  5. Cromos imposibles, 'repes' y demás mitos sobre la colección de LaLigawww.abc.es · 2026-09-19
  6. COLECCIÓN DE JUEGOS INFANTILES: LOS CROMOSmuseodeljuego.org · 2026-09-19